mergulho no raso

Tantos livros eu poderia estar lendo

Vírgula

A dança mística do teu corpo eu poderia estar vendo

Vírgula

As linhas finas do trabalho classic que estou escrevendo

Reticências

Ou sentindo as chamas da cidade na minha pele ardendo

Ponto-e-vírgula

Onde está a minha liberdade (provisória)?

Operação Luzes da Justiça – Parte Final

No instante em que Biel se recostou no parapeito da varanda e olhou para baixo, o coração deu um salto e seus olhos se arregalaram. Lá embaixo, na área do estacionamento daquele Bloco, Igor e os outros dois, Hugo e Jairo, pisavam e chutavam a bicicleta de Bernardo, gargalhando alto a cada novo golpe desferido. Gabriel conseguiu ver nitidamente o guidão da bike entortado, e o selim já estava fora do seu lugar há muito tempo.

— Ei! Parem com isso!

Gabriel gritou o mais alto que pôde, mas a sua demonstração de raiva apenas incitou ainda mais as risadas zombeteiras de Igor e seus amigos. Entrando em desespero, Gabriel se afastou correndo da varanda em direção ao quarto de Bernardo. Porém, antes disso, conseguiu escutar lá de baixo a voz de Igor gritando para ele:

— Seu filho da puta chorão!

E as gargalhadas de escárnio ficaram ainda mais altas e cruéis.

A tensão e a ansiedade que se intensificavam rapidamente não permitiram que Biel digerisse o que tinha acabado de escutar. Mas aquelas palavras de algum modo pesaram sobre o garoto, que se viu movimentando-se um pouco mais devagar em direção ao quarto de Bernardo, embora soubesse que estava correndo com tudo. Empurrou a porta e entrou.

Derramou as palavras de uma vez só, mas foi claro e objetivo na mensagem. Bernardo e Samuel tomaram um susto com a entrada repentina e o falatório choroso de Gabriel. Logo entenderam o recado e se apressaram para sair do quarto.

Ao passar por Gabriel, Samú notou que o irmão tremia, e que uma lágrima diminuta rolava de seu olho direito. Não parou para falar com ele, nem se demorou na observação, mas aquilo o encheu de uma fúria repentina, e Samú saiu correndo em disparada para fora do apartamento, ultrapassando Bernardo e deixando tudo para trás.

Os dois garotos desceram os três lances de escada numa velocidade impressionante. Biel veio logo atrás, o mais veloz que suas pernas cambaleantes lhes permitiam correr. Viu Samú perder o equilíbrio no final do trajeto e quase cair, mas recuperando a estabilidade dos pés com habilidade.

Já na entrada do Bloco “C”, os três garotos pararam um momento e olharam ao redor, procurando Igor. Com muita calma, Bê proferiu o seguinte comando:

— Hora de executar o plano!

Foi o suficiente para a energia frenética de antes envolver o corpo dos três meninos.

Samuel saiu em busca de sua bicicleta. Bernardo o seguiu, tentando a certo custo acompanhar os pés ligeiros e Samuel. Ao encontrá-la, no exato lugar onde a deixara, viu que havia sido deixada intacta. Montou de uma vez, e sem esperar orientações, Bernardo subiu na garupa. Olharam para frente e avistaram Igor, correndo pela extensa área do condomínio com a bicicleta de Biel, e seus dois amigos em seu encalço, cada um em sua máquina.

Samuel iniciou a perseguição a Igor e seus amigos, pedalando com força e atingindo novamente uma velocidade incrível em pouco tempo.

Biel ficou parado no mesmo lugar, vendo o irmão se distanciar dele muito rápido, mas sem conseguir chegar perto de Igor. Então as últimas palavras que o menino gritou para ele ecoaram em sua mente, dessa vez parecendo mais claras e doloridas. Gabriel saiu de seu lugar de forma quase automática, deixando-se levar por uma onda nova de energia e loucura. O caminhar que iniciou logo se tornaram passos mais breves, mais breves, até que os pés quase não se demoravam mais no chão. Em pouco tempo, viu-se arfando e subitamente muito suado, mas estava diante da bicicleta do Lipe, no Bloco “B”.

Sem pensar, Biel montou na bicicleta do amigo e começou a pedalar.

Logo ele entrou na zona em que vira Samú e Bê correndo a todo vapor atrás de Igor. Mas agora ele não conseguia ver ninguém. Era uma área espaçosa e comprida, ladeada por vários apartamentos de quatro andares, de diversos Blocos. As mãos de Biel suavam pelo esforço que ele fazia para ganhar velocidade, mas também pelo temor que crescia em seu peito. Já estava mais escuro do que quando desceram, e apesar de cada bloco ter iluminação própria em suas áreas de estacionamento, ali onde ele estava, bem no centro de uma grande parte do condomínio, estava muito escuro.

Depois de algum tempo, Biel avistou à sua esquerda a pracinha do playground, mal iluminada mas ainda muito convidativa, e uma luz se acendeu em seus pensamentos. Ele se lembrou de todo o plano de Bernardo, e um sorriso contente e aliviado brotou de canto a canto de seu rosto.

Então ele sentiu uma superfície maleável pesar com força contra o seu rosto, e foi arremessado para trás. A bicicleta derrapou alguns metros para o lado e Gabriel caiu com tudo no chão de cimento, rolando algumas vezes até parar.

Os braços e os joelhos ficaram quentes e começaram a arder, e sua testa também. Mas a primeira coisa que ele notou era que seu rosto estava ensopado, e suas roupas também estavam molhadas. Biel pôs-se de pé com dificuldade e olhou melhor para o corpo. Os olhos estavam marejados e ele enxergou tudo embaçado, mas viu que os joelhos estavam brancos, e ele sabia bem o que vinha a seguir. Preferiu não olhar para os braços. Ao lado dele, no chão, um plástico azul estava rasgado em alguns pedaços de tamanhos diferentes. A arma que o acertara.

— Olha só, se não é o bebê chorão! — gritou Igor, fazendo os outros dois rirem em seguida. Estava entre Hugo e Jairo, os três parados na mesma posição: ainda sentados no selim das bicicletas, mas com os dois pés fora dos pedais, equilibrando seus corpos magricelas no chão. — O que ele merece? — os outros dois gritaram: bombaaaaa!, e de uma bolsa pendurada nos ombros de Jairo, tiraram vários balões d’água.

A ofensiva foi rápida, certeira e dolorosa. Balões d’água de todos os tamanhos atingiam Biel em todas as partes do seu corpo, da cabeça aos pés. Alguns errava o alvo e explodiam ao lado dele, e apenas o molhavam. As feridas nos braços e nas pernas ardiam toda vez que ele era atingido e quando a água se espalhava. Ele murmurava “ai, ai” baixinho, esperando o ataque terminar. Um balão grande acertou bem em sua testa, e ele gritou mais alto com a dor aguda que veio em seguida. Finalmente cedeu às lágrimas e se encolheu no chão, segurando a testa com as mãos. Mas sem chorar ou espernear, ele se manteve quieto. Só precisava aguentar mais um pouquinho.

De repente, o ataque teve fim. Lentamente, ele deixou as mãos caírem e levantou a cabeça. Um líquido quente descia devagar da testa dele, escorrendo lentamente pelo nariz; as mãos estavam úmidas, mas o líquido era quente e pegajoso, diferente da água que o fustigou durante aquele pequeno período que pareceu uma eternidade. Mas foi outra coisa que assustou o garoto.

Igor estava parado diante dele, enorme e amedrontador. Era poucos anos mais velho que ele e seus amigos, mas podia passar por um adolescente mais velho facilmente. O cabelo bagunçado e o sorriso de canto de boca davam a ele mais uma camada de vilania.

Então percebeu que Igor trazia na mão um objeto, e ficou assustado. Ele segurava uma pequena haste de madeira irregular que se bifurcava para as diagonais em hastes menores de onde saíam tiras de elástico. Viu Igor colocar uma forma retangular num pedaço de couro onde as tiras do elástico se encontravam. Então ele puxou o elástico pelo objeto que havia acomodado ali, o máximo que conseguiu tencionar, e ficou parado, encarando Gabriel com o estilingue apontado para a face do garoto.

O corpo todo de Gabriel tremeu. Ele quis sair correndo dali, mas não foi capaz nem ao menos de se levantar. Foi quando pensou em seu irmão mais velho. Samú era corajoso e valente, e estava sempre protegendo ele. Naquele dia, no futebol do massacre, Gabriel não foi atingido nenhuma vez porque Samú jogava o corpo contra o dos garotos mais velhos sempre que Biel era o alvo, e conseguia livrar o irmão de se machucar. O Bê também era corajoso, e nunca permitia ser deixado para trás, apesar de não ser o mais ágil, nem o mais forte. Então por que ele tinha que ser sempre o bebê chorão?

Gabriel sentiu as pernas obedecerem aos seus comandos e se colocou de pé. Os traços de seu rosto tomaram formas novas, que nada combinavam com as feições serenas do garoto doce e comportado que Biel sempre foi. O peito subia e descia pesadamente, e as lágrimas caíam sem cerimônia de seus olhos. Mas ele não chorava de dor ou de medo. Chorava de raiva. Muita raiva.

Gabriel encarou Igor nos olhos, ignorando a arma que tinha sua mira bem posicionada sobre a testa dele. Passaram alguns segundos se encarando fixamente. O ambiente estava silencioso e estranhamente calmo. A visão periférica de Biel foi fisgada então por um brilho fraco que piscava constantemente, vindo da direção do playground. Então ele se lembrou pela segunda vez do plano de Bernardo.

Era naquele momento que tudo daria certo.

Gabriel sorriu para Igor, o mesmo sorriso diabólico que o mais velho adorava exibir, e engolindo um punhado de ar de uma vez, ele gritou:

— AGORAAAAAAAAAA!

Então, de repente, luzes de lanternas de várias tonalidades e intensidades foram acesas ao redor de Biel e Igor, vindas de várias janelas de muitos andares. Igor recuou alguns passos mas as luzes o seguiram. O estilingue que segurava caiu no chão com um baque surdo. Davi, Heitor, Artur, Gigi, Téo e Tereza. Jú, Andrezinho, Airton e Duda. Biel também viu alguns pais e tios ao lado deles nas janelas, e eles com certeza não deviam estar nada contentes com aquilo. Todos estavam ali, e esperavam somente o comando certo para finalmente pegar no flagra o idiota do Igor. Nenhum deles veria, pois estavam um pouco distantes para isso, mas Biel teve o prazer de testemunhar uma bela careta de terror no rosto de Igor, e depois de surpresa quando os dois fiéis escudeiros dele deram meia-volta e fugiram depressa.

Biel sentiu uma mão tocar seu ombro e virou. Bernardo entregou a ele um objeto redondo e mole, que pesou em sua mão. Biel entendeu, e sem demora, virou com tudo para Igor, arremessando com força o bolão contra o rosto dele. Igor se assustou e o impacto o fez cair para trás, de bunda no chão. O ambiente foi tomado por fartas gargalhadas de todos os lados. Biel foi contagiado e começou a sorrir também. Percebeu que o irmão fazia um sinal de legal para ele, ainda rindo, e sentiu um alívio tão grande que os ombros caíram. Passou o dorso da mão pelos olhos. Ele estava bem, e tudo deu certo.

Igor foi levado pela mãe aos puxões de orelha, e os espectadores das janelas acompanharam sem piscar os olhos o vexame que ele passava, e do qual dificilmente se esqueceria.

Trinta e cinco anos depois, Gabriel rememorava lembranças desbotadas do passado ao procurar o álbum de fotos dos filhos quando bebês. Por alguma razão, aquele acontecimento específico veio com tudo enquanto passava as fotos de seus gêmeos e os via tão inocentes brincando naquelas imagens vibrantes, eternizadas no tempo. Era engraçado como tudo era vivido com tanta intensidade na infância, e como cada brincadeira, briga e gargalhada eram levadas a sério como questões de vida ou morte. Sentiu enorme gratidão por tudo o que viveu, e por quem havia se tornado.

Quando saiu do seu escritório carregando o álbum nas mãos, estava decidido a ligar para Samuel e convidá-lo a passar as festas de fim de ano com ele. Gabriel estava com saudade.

Operação Luzes da Justiça – Parte 1

Ding-dong…ding-dong.

— Bernardo! — Samuel gritou de frente para a porta do 303. — Bê, abre aqui! É a gente!

Ding-dong…dingdongdingdongdingdong.

— Ei, Samú, não faz isso! — repreendeu Gabriel, o irmão gêmeo não idêntico de Samuel e alguns segundos mais novo que ele.

— Mas a gente precisa falar com o Bernardo agora, Biel. Agora, agora! — retrucou Samú, cada vez mais agitado, e, involuntariamente, agitando o irmão.

— Eu sei, mas isso vai aborrecer a tia Cássia.

— Tá bom, bobão. Vou tentar outra coisa.

Samú se abaixou bem rápido até o rosto ficar rente ao tapete de entrada do apartamento de Bernardo, onde estava escrito um floreado “Seja Bem-Vindo”. Encheu o pulmão com o máximo de ar que conseguiu e soltou de uma vez no seu mais potente sussurro:

— Bernardooooo! Bê! Bernardo, Bê!

A porta foi aberta de uma vez e os pés descalços de Bernardo surgiram diante do nariz de Samuel. Samú levantou a cabeça lentamente enquanto abria um sorriso matreiro de orelha a orelha.

— Oi, Bê.

Bernardo ficou encarando os amigos com um olhar zangado estampado no rosto amassado. Os cabelos lisos e desgrenhados eram a prova definitiva de que ele estava dormindo. Com a voz fraca e meio rouca, falou: — Suas duas bestas. Vocês acordaram a minha mãe.

— Desculpa, Bê — disse Samú, enquanto se punha de pé outra vez —, mas é que nós precisamos de você agora!

Bernardo deixou que os dois amigos entrassem no apartamento, e assim que se sentaram no sofá da sala dele, os dois garotos começaram a falar apressadamente e sem pausas, atropelando as palavras, a ordem dos fatos e os personagens envolvidos. Depois de Bernardo confessar que não estava entendendo o que eles estavam tentando contar, Samuel decidiu recomeçar do zero, pedindo para que Gabriel ficasse quieto dessa vez, o que foi prontamente obedecido pelo mais novo.

Samuel explicou que uma tragédia tinha acontecido: Igor havia descoberto o plano deles e iria revidar. Igor era o garoto de treze anos do Bloco D que, com a ajuda de seus fiéis escudeiros, Hugo e Jairo, sempre achava um meio de acabar com a diversão dos meninos.  Na tentativa de dar o troco, Bernardo bolou minuciosamente um plano de revanche que foi aprovada pela Cúpula da Pracinha e demais membros.  Consistia, basicamente, em atrair Igor para o depósito de ferramentas e velharias do condomínio, onde não correriam risco de bagunçar áreas intocáveis do condomínio e irritar os adultos, e dificilmente seriam vistos por eles. Lá, iriam encurralar Igor, e, no ápice da brincadeira, lançariam contra ele um arsenal de balões d’água maciços e ameaçadores, vindos diretamente da reserva de balões azuis e verdes do aniversário do Lipe.

Os preparativos tinham terminado naquela manhã, e estava tudo pronto para execução do plano um pouquinho mais tarde que a hora em que conversavam, e agora isso! Igor, provando mais uma vez que conseguia superar a própria vilania, descobriu o que eles pretendiam fazer, encontrou o esconderijo dos garotos e espalhou para os quatro cantos do condomínio que tinha todos eles em suas mãos. E que os esmagaria sem dó.

Bernardo caminhou em direção à varanda do seu apartamento, pensativo. Debruçou-se sobre o parapeito, com os cotovelos sobre ele, e fixou o olhar no movimento lá embaixo. Samú e Biel permaneceram sentados no sofá, e se entreolharam assim que Bernardo deu as costas a eles. Bê era o cabeça das melhores operações deles, e apesar de ter apenas onze anos, tudo indicava que tinha um QI muito superior à média dos garotos da sua idade. Samú se sentia um pouco mais tranquilo agora que estava na casa de Bê, O Gênio. Biel olhava de soslaio para Bê, sua testa enrugada de preocupação.

— Então o mentecapto do Igor achou o esconderijo — disse Bernardo, retornando para o sofá. — Isso quer dizer que ele não vai mais funcionar para nós de agora em diante. Precisamos de outro, urgentemente. Ele também deve ter acabado com todos os balões d’água — concluiu, sentando-se no sofá.

— Sim, ele explodiu todos. — Samuel confirmou, fazendo um bico de frustração.

— O Igor vai maltratar ainda mais a gente. — Biel choramingou ao lado de Samú.

— Ô, garoto, vira essa boca pra lá! — reclamou Samuel, exasperado.

— Mas ele vai!

— Não vai! E não diga mais isso! Ninguém aqui é um fracote como você! — Samuel gritou sem paciência, mas a carranca desenhada no rosto foi se desfazendo quando viu os olhos marejados do irmão e como ele parecia que tinha diminuído de tamanho. — Desculpa. Mas não fale mais essas coisas — tentou consertar falando com a voz mansa. — Nós vamos dar um jeito nisso, não é, Bernardo?

— Vamos. Mas fiquem calados um minuto. Preciso pensar.

Bernardo ficou parado naquela pose que fazia quando a cabeça estava agitada, cheia de ideias que ele precisava colocar em ordem: mão direita debaixo do queixo, e o braço apoiado na perna. Era mais ou menos como na foto daquela estátua famosa que ele tinha visto na internet.

— Eu tenho uma ideia — revelou Bê de repente. Os olhos de Samuel e Gabriel se iluminaram instantaneamente, um sorriso conjunto surgiu. — É o seguinte…

Bernardo contou em detalhes o que havia pensado. Os garotos não tinham certeza se estavam entendendo, mas o sorriso não sumia de seus rostos e eles concordavam com tudo o que ele dizia. Quando Bernardo concluiu a explicação, Gabriel foi o primeiro a falar.

— Posso ir na minha bicicleta também?

— Não! — respondeu Samuel, de pronto.

— Acho…melhor não, Biel — disse Bê à meia voz, meio hesitante, mas parecendo certo de sua opinião.

— Você só vai atrapalhar. Vai comigo, na garupa da minha.

— Mas com três bicicletas…

— Não e não. Não vá estragar o plano do Bê.

Bernardo se levantou do sofá e disse: — Se resolvam aí, irmãos. Temos trabalho a fazer. — Samuel sorriu animado, mas Gabriel estava meio cabisbaixo. — Hoje nós vamos derrotar o Igor.

Bernardo correu para o seu quarto. Antes de ir, porém, alertou que daria início ao plano naquele instante. Ligaria para Davi, o único que tinha um celular, igual a ele, e explicaria passo a passo do esquema. A ordem era para que, em seguida, Davi fosse na casa de todos os meninos e orientasse cada um, sem equívocos. Samuel ouviu Bernardo e o seguiu em direção ao quarto sem olhar para trás. Gabriel olhou o irmão e o amigo entrarem no quarto de Bernardo, mas não moveu um músculo. Ficou ali parado, bastante ansioso e pensativo.

Gabriel tinha certeza de que tudo daria errado. Igor era maior do que eles, mais forte do que eles, e muito mais malvado. Se ele quisesse, poderia acabar com todos eles rapidinho. Lembrou-se de uma vez, pouco tempo atrás, quando foram jogar futebol na quadra do condomínio, e Igor pediu para jogar também. Gabriel assistiu ao maior massacre aos seus amigos até aquele momento, apesar de ele mesmo não ter sofrido nenhum arranhão. Igor dava empurrões fortes, carrinhos, e chutava a bola com força contra eles. Além disso, o mais velho também gritava alto no ouvido deles, brigando e xingando muito. Alguns não se importavam de verdade, e tentavam fazer a mesma coisa nele. Mas Samú tinha saído daquele jogo com um rasgão feio no joelho direito, e Gabriel ainda podia se lembrar dos gritos de dor que ele dava quando a mãe passava aquele spray antisséptico na ferida.

O plano do Bê parecia bom, e o irmão sorria confiante, mas as mãos de Biel ainda suavam muito mesmo assim. Gabriel finalmente se levantou do sofá, andando em direção à varanda. Bernardo e Samuel ainda não tinham voltado, e a demora o havia cansado. Lá fora, o sol perdia pouco a pouco seu brilho majestoso, tornando-se um imenso véu límpido colorido em laranja e azul escuro.

Fartas lembranças pálidas

O que eu não faria para entrar novamente naquela casa…

Espremida entre várias outras de mesmo formato, penoso de distinguir, compartilhando da mesma quietude da rua que lhe desnuda, ali está a primeira casa onde morei. Depois que deixei minha cidade antiga, cabisbaixo, inundado de saudosismo, foi naquela casa onde eu primeiro pisei. Ela me viu desolado, andando de cá para lá, pensando no que poderia fazer. Ela me viu lutando para me adaptar; posso dizer que me viu renascer.

Foi naquele espaço que também acompanhei a decadência que a vida determinou ao meu pai. Tudo começou na cidade antiga, mas foi naquela casa que acabou. Eu ainda me lembro bem das conversas que travamos, quando eu falava dos meus sonhos e ele me ouvia com satisfação, no terraço que dava para a sala de estar, ali onde ninguém mais tirava um tempo para frequentar. Lembro também das horas a fio em frente à TV, sempre a postos para atender à sua próxima necessidade. E não se desbotam as imagens de quando ele ia embora, visitar pais e irmãos. E nunca vou esquecer do último dia, a última partida e a notícia de sua ida fatídica. Foi nas paredes daquela casa em que me apoiei e chorei.

É claro que nem tudo foi dor: na casa de muro branco e portão cinza fiz os primeiros amigos e contei a eles sobre meu primeiro amor. Era uma época em que os amigos da escola passavam o final de semana inteiro lá em casa, e ninguém queria deixar a diversão acabar. Às vezes (quase todas as vezes) eles dormiam lá, em colchões velhos improvisados ou colchonetes vindos da antiga casa. E não havia uma alma sequer que reclamasse de noite mal dormida; tudo o que importava eram as madrugadas em claro que passávamos rindo escandalosamente e sem pudor da infinidade de besteiras que dizíamos uns para os outros.

Ali minhas primeiras grandes transformações aconteceram. Nas paredes estão escritas as histórias das minhas primeiras preocupações, das primeiras ligações de amigos no celular, das descobertas e das omissões, e de quando vivi as primeiras decepções. Nosso teto lastimou as vezes em que abaixamos a cabeça para chorar; ficou curioso para nos ouvir sempre que nos encarávamos no olhar; e riu com a gente quando a cabeça tombava para trás porque o corpo e a alma precisavam gargalhar. O chão sentiu o peso da minha fragilidade e hesitação.

Hoje as memórias são tão delicadas e resistentes quanto era a vida naquele tempo. Mas sei que existem cores e sentimentos fora do lugar. Hoje, as memórias são como a onda que chega branda aos pés do turista que não quer se molhar. O que eu quero é a onda que quebra pesada na costa; a fúria do mar. Quero a enxurrada de sensações e o arrebatamento da alma que se conseguiria se eu entrasse mais uma vez lá. Na casa que me abrigou e me viu crescer.

Ah, o que eu não faria para visitar só mais uma vez o meu primeiro lar…

Calendário de Melina: 2028

Último Chamado

Era como se o tempo nunca tivesse passado.

Noa se lembrava com detalhes de tudo: a chuva serena que tamborilava na calha de metal bem em cima de sua janela; o filme meia-boca da Uma Thurman que fazia o quarto inteiro brilhar em cores brandas às três da manhã; o vazio acolhedor, o tédio misericordioso que lentamente sobrecarregavam o peso de suas pálpebras e tornavam irresistível a sedução de Morfeu.

E sua consciência sendo tragada brutalmente de volta ao mundo pela insistência pueril do toque do celular.

Quando o nome brilhou no chamador, Noa sentiu o ar abandonar os pulmões por alguns segundos. Melina. Antes de atender, passou por um processo interno de avaliação da situação, das circunstâncias, do passado, do presente, das incertezas de outrora e as mais recentes, de agora. Experimentou, em poucos segundos, a pressão angustiante de ter que escolher entre dois caminhos árduos. Afinal, cedeu ao chamado, dolorosamente consciente de que já sabia o que faria.

Os acontecimentos seguintes eram uma imensa bagunça reminiscente, um borrão em tons escuros pintado nas lembranças de Noa. Melina chorava sem parar e pouco do que dizia era inteligível. Além de tudo, Noa ainda precisou de alguns segundos para dirigir tudo: a ligação repentina, Melina, o choro contínuo e implacável, as palavras inalcançáveis. Quando a conversa finalmente fluiu, Melina fez o pedido derradeiro, a súplica final, pendente há tanto tempo, refreado como o grito que se guarda entre plumas no peito para o sagrado instante de desespero.

“Preciso de você. Vem ficar comigo.”

E Noa atendeu ao chamado com a disposição de quem enfim descobre o propósito da vida e não pode esperar nem mais um segundo para cumpri-lo. Deixou a casa levando o mínimo, a roupa do corpo e a chave do carro, tudo o mais ficando para trás: que era o lugar que cabia a tudo quanto fosse de detalhes banais que não tivessem a ver com Melina.

O encontro fatídico aconteceu exatamente onde Melina prometera que estaria: na porta de entrada de uma das boates mais famosas da cidade, Terraço ou Quintal, um nome doméstico demais para a estrutura grandiosa que a sustentava. Parou o carro em qualquer lugar e correu para ela. Como parecia pequena e oprimida! O corpo lânguido e vacilante dava sinais de que cederia a qualquer momento. A maquiagem já havia sido desfeita há bastante tempo e os borrões no rosto lhe davam um aspecto fantasmagórico.  

“Ei, não precisa mais chorar, eu tô aqui. Não chore mais.”

O pedido teve o efeito contrário; assim que foi envolvida em seus braços, Melina rebentou num choro compulsivo, agarrando-a pelas costas e puxando para mais perto, mais perto, com urgência, como se ainda houvesse espaço para preencher entre as duas.

Entre uma onda de soluços e fungadas, e uma ligeira trégua no choro, Melina aproximou a boca do ouvido de Noa e falou, com um suspiro ao final.

Os pés de Noa perderam o chão; o mundo girou. Noa abraçou Melina com mais força.

Era como se o tempo nunca tivesse passado, e agora que havia caído no vórtex das memórias, Noa revivia tudo com uma intensidade assustadora (e dolorosa). A verdade que Melina lhe confessou a custo de tanta coragem naquela noite; o medo que sentiu quando as palavras começaram a fazer sentido; a sensação de se sentir perdida, desnorteada. Dias depois, o mesmo desespero durante a primeira consulta de Melina com o médico especialista; o pavor sufocante que crescia à medida que o médico falava, com frieza e comedimento, mas sem poupar nada; e, ao mesmo tempo, todo o esforço que fez para evocar a coragem para acolher quem realmente precisava de suporte. Melina.

E o prognóstico. “O tratamento pode dar bons resultados, mas ainda é cedo para afirmar qualquer coisa. O tempo nos dirá.”

E tudo ficará bem.

Mas não naquele momento, não enquanto Melina ouvia as piores notícias sobre seu corpo e sua saúde. Ali, Melina desabou, com muito mais veemência do que quando só havia suspeitas e incertezas. Naturalmente, Rita, mãe de Melina, também esteve presente durante a conversa, segurando a mão da filha do início ao fim. Mas o resultado não foi diferente: precisou se apoiar nos braços de Noa para se manter minimamente firme no chão, enquanto os olhos drenavam todo o líquido que o corpo carregava.

E assim os dias seguiram. Melina deu início ao tratamento alguns dias depois, com Noa e Rita como suas acompanhantes. No começo ainda havia uma espécie de revezamento com Rita, mas as semanas que sucederam revelaram a incapacidade emocional da mãe de Melina para com a situação da filha. Noa sugeriu, por conta própria, que Rita a deixasse acompanhar Melina nas questões médicas, e que Rita lhe desse todo apoio necessário quando Melina estivesse em casa. Que assim era melhor, que Noa precisava ficar esse tempo com Melina. Rita reconhecia a fragilidade dos argumentos de Noa, mas não contestou; compreendia as intenções dela e, acima de tudo, sabia que para Melina, acompanhar a decadência gradual de seu estado poderia ser de fato óbice para o tratamento e recuperação da filha.

E assim os dias seguiram. Poucas eram as ocasiões em que Noa não estava ao lado de Melina. Mesmo quando a garota era liberada para passar alguns dias em casa, a sua maior supervisão partia de Noa. As refeições, almoço, lanche da tarde e jantar; as roupas que Melina usava, decidiam juntas; as caminhadas de manhã cedo, quando permitido, para pegar um sol, respirar um ar fresco e desanuviar a cabeça. Os sorvetes de domingo. As gargalhadas intermináveis sobre qualquer piada boba que Noa dizia. Melina tinha os olhos reluzentes de uma criança que conhecia o mundo pela primeira vez e se encantava. E Noa havia assumido internamente a obrigação de proteger aquele brilho.

Noa percebia a sutileza com que cada semana superada lhe aproximava mais de Melina, o que tornava tanto mais difícil distinguir o que era sua vida e o que era a vida de Melina. Não conseguia mais se lembra de como era a vida sem ela, e só a ideia de algum dia ter que dizer adeus, só de pensar em Melina sendo tirada à força de sua vida…

Em certo ponto da jornada, uma nuvem cinzenta e pesada pairou sobre a cabeça das três mulheres. Foi naquele tempo que Melina passou a dividir com elas mais dias difíceis que amenos, já não conseguia disfarçar o peso do fardo que carregava sobre os ombros. Passava agora muito mais tempo no hospital, tanto que praticamente todo o guarda-roupas havia sido transferido para aquele aposento. Tinha noites que não dormia, a tranquilidade do sono era substituída por gritos de dor e choro desconsolado.

Justamente quando o medo começou a povoar os pensamentos de Noa, aquilo aconteceu.  

Eram três da manhã, Noa ainda não tinha conseguido pregar os olhos. A barriga roncava, mas ela não aceitava deixar Melina sozinha por um minuto que fosse. Com relutância, ouviu o pedido de Melina para que não se privasse de atender às suas necessidades e fosse comprar algo para comer; que não se preocupasse pois ela não iria mesmo a lugar algum. Triste com o senso de humor sombrio da garota, Noa resolveu ouvi-la. Foi quando deixou o elevador que Noa notou a agitação no andar. Duas enfermeiras perto dela conversavam em sussurros, bastante agitadas, enquanto pareciam dosar numa seringa uma medicação. Do outro lado, um enfermeiro entrava apressado no quarto de Melina, que pelas sombras que cresciam do lado de fora já se mostrava bem cheio. Subitamente trêmula e com a respiração pesada, Noa forçou os pés a levarem até o quarto. Entrou desesperada, ignorando os médicos que se avolumavam sobre Melina, empurrando-os, usando da grosseria do corpo para tirá-los dali, queria arremessa-los para longe de Melina. Uma brecha se abriu entre dois jalecos brancos e ela forçou passagem por eles. Bem diante dela, Melina jazia inerte. Uma imagem que jamais deixaria os piores pesadelos de Noa.

Horas mais tarde, as notícias chegaram para Noa e Rita. Melina havia sofrido uma parada cardiorrespiratória; foi levada às pressas para a UTI, mas os métodos de reanimação não surtiam o efeito desejado. Os médicos decidiram por induzi-la ao coma, e, outra vez, estavam todos diante de uma situação para a qual somente o tempo poderia dar uma solução. Os assuntos mais caros a ela dependiam do tempo e de suas esperas angustiantes. Eram reféns do tempo.

Noa se entregava a toda sorte de promessas. Enquanto a mente se ocupava com pedidos suplicantes de saúde para Melina, o coração se apertava com o sentimento que chegava a causar desconforto físico no peito. Não muito tempo atrás, sabia que havia causado dor em Melina, e a troco de quê? Pensando exclusivamente na dor e nos sacrifícios que não queria experimentar, Noa foi egoísta a ponto de abandonar a única pessoa que encerrava em toda sua gentileza e acolhimento o único lugar no mundo capaz de inspirar a paz no espírito de Noa. Embebida pela toxina do medo e da covardia, ela foi muito além do simples sumiço comum aos relacionamentos que conhecia: abriu as portas do coração e convidou Melina a se retirar. Ato em um só momento de crueldade e de fraqueza. E que visualizavam seus resultados somente agora, por meio das lágrimas que derramadas sem pudor. Imploravam perdão. Suplicavam amor, suplicavam pela vida de Melina; e desejavam ser o rio a corre direto no leito de Melina para desaguar na mensagem mais importante: que Noa a esperava ali, e que guardava para ela o mais singelo e infinito amor.

Do outro lado das janelas daquele prédio hospitalar, a noite alta presenteava toda forma de vida com uma bela chuva torrencial como há muito não se via. Ouvindo a insistência de cada gota, uma mais forte e pesada que a outra, Noa tomou sua decisão. Pouco importava quanto tempo pudesse durar. Quando Melina acordasse, e ela sem dúvidas acordaria, Noa retomaria o projeto que sua persona menos corajosa tinha interrompido. Compartilharia com Melina o amor e a vida, e destes as glórias, os obstáculos, as perdas e todas as vitórias.

                                                                       ***

Noa limpou as lágrimas serenas que congelaram de um lado e outro das bochechas. Ainda tinha de si a imagem de uma mulher durona, mas de vez em quando era surpreendida com as reações instantâneas das emoções em contato com lembranças. Quando havia se tornado tão boba?

Abriu um breve sorriso de compreensão.

Passos leves e agitados se aproximaram do quarto em que estava. Noa guardou a foto que segurava esse tempo todo e que havia lhe mandado tantos anos no passados, por meio de uma torrente de sentimentos, memórias e traumas. Um rostinho singelo e travesso brotou no vão da porta e sorriu para ela, oferecendo a mão diminuta.

De volta à sala de estar, Noa caminhou até a frente da TV ligada e se pôs bem diante dela. Empatou a visão do telespectador que ainda estava assistindo, e encarou seus olhos fixamente. Noa foi se aproximando enquanto os olhos confusos a acompanhavam, sem nunca deixar de sustentar a encarada. Aproximou-se até que seus olhos estivessem a centímetros de distância, e ela pudesse sentir o hálito doce presentear-lhe as narinas. Melina sorriu confusa e perguntou:

“O que foi, sua doidinha?”

Noa deixou escapar uma última lágrima. Retribuiu o sorriso.

“Eu amo você.”

Calendário de Melina: 21 de Junho de 2018

Punhado de areia

O toque do celular anunciou uma mensagem nova. Depois outra, e mais uma. Era Melina, mas Noa estava decidida a ignorar as tentativas de ser contatada.

Silenciado.

Até aquele momento, guardava uma quantidade absurda de momentos maravilhosos vividos ao lado de Melina. Os dias que passara sozinha, vez ou outra distraindo a cabeça na presença de algum amigo, foram substituídos pela companhia constante da garota. Melina moldou outras expressões em seu rosto. Deu outros significados para palavras apodrecidas no coração de Noa. Melina tinha uma presença misteriosa que prometia que tudo ia ficar bem, sem dar a menor pista de como conseguiria concretizar essa ideia boba.

Melina era quem a acordava com o primeiro bom dia; passava o final de semana em sua casa deitada em seus braços ou descansando a cabeça sobre suas pernas; preparava o seu brigadeiro grudento e de sabor duvidoso, e ria alto quando Noa enrugava a testa ao provar.

Melina era muito familiar. O que causava estranheza em Noa. Veio a conhecer sua existência há não mais que poucos meses, e sentia que desde então era a mesma Noa, mas milhares de vezes melhor.

A tela do celular acendeu e ele vibrou algumas vezes. A inquietação nos sentimentos não dava tréguas. Decidiu calá-lo de vez.

Noa desligou o aparelho.

Era estranho como o corpo relaxava ao lado de Melina, e as palavras fluíam com facilidade: a boca falava o que a alma exalava. Não havia pressa ou precipitação, e a urgência era semeada somente nos beijos que buscavam mais que o toque; desejavam o cerne, a substância primordial, a origem.

O verdadeiro inferno de Noa começava quando ela sozinha. Deitada em sua cama, sentia a agitação na boca do estômago e as costas rígidas, duras como o mais puro mármore. Acreditava que a qualquer momento a tempestade chegaria, levando às ruínas suas fundações tão pouco estáveis. Imaginava a exposição dolorosa de suas feridas, ela completamente nua diante do mundo, um lugar pouco confiável que já lhe traíra uma vez. O terror que se lançava sobre seus cada imagem formada à distância de Melina deu ensejo ao pior dos seus comportamentos.

Noa não respondeu a nenhuma das mensagens de Melina pelos três dias que se passaram.

Quando, afinal, decidiu o celular, encontrou uma enxurrada de mensagens, umas sobre as outras, tentando fazer algum sentido. Entendo encontrar algum sentido.

A última mensagem de Melina chamou de vez sua atenção. Dizia simplesmente:

Não sei se te peço desculpas ou se te amaldiçoo. Porque não sei o que eu fiz, e por isso também não sei o que fazer a partir de agora. O que eu sei é que você chegou na minha vida sem avisar, entrou pela porta da frente e se alojou em mim. E eu nem precisei me esforçar pra fazer de mim a sua morada. Aconteceu naturalmente. E eu não estou reclamando ou passando na sua cara. Não poderia fazer isso com a pessoa que iluminou os meus dias nesses últimos meses, depois de tanto tempo em que a única cor no meu céu eram o cinza pesado da manhã e a escuridão das noites sozinha. Na verdade, eu te agradeço. Mas você não parece mais quem eu conheci, e eu venho tentando de tudo para te fazer voltar. Meu peito dói. Nós estamos morrendo e eu acho que a culpa é sua. Não vou mais te incomodar, então até algum dia.

Melina tinha razão. O céu tinha assumido outras cores desde o primeiro dia. Não chovia mais, e as noites não eram tão frias. Aquele sentimento tão aconchegante, acolhedor, era a maravilha do amor de Melina. Gentil e atencioso. Como uma carícia dada de graça ao acordar. Como o beijo de quem sai prometendo que vai voltar.

Por essa razão, era também o motivo de Noa ter convicção de que, se por algum descuido se deixasse distrair um segundo, o mundo todo tombaria sobre ela. E dessa vez poderia não suportar.

Não iria arriscar.

Não iria responder Melina.

E não iria se desculpar.

Mensagem visualizada.

Quietude

Hoje ninguém me viu.

Passei, andei, olhei e até falei, mas ninguém me viu.

Pudera: não estava aqui.

Sorri e me sorriram de volta; mas eu acho que passou por mim. Olharam direto nos meus olhos, mas nada conseguiram enxergar.

Eu não estava aqui.

Hoje até as palavras me escaparam, de mim arredias elas pularam, a frases inacabadas se uniram; a força do motim das ausências reveladoras.

Então hoje tive acesso àquela parte difícil de ser que só se encontra com muito silêncio e concentração. Vi traços que havia esquecido; desenhos borrados mas na pele marcados. Vi passado e renovação.

O autoconhecimento pressupõe retiro. Mergulhei num mar da discrição. Hoje fui puro silêncio.

Hoje-solidão.

Mas eu vi quem passou, vi quem olhou e vi quem falou. Hoje eu vi muito; apesar da boca selada. Numa guinada do destino, a vida de todos me foi escancarada.

Hoje ninguém me viu.

Mas eu vi. E é certo que vi a todos também.

e a palavra surgiu

Hoje acordei disposto a dar um sentido a mais à minha vida.

— Um gás extra, uma energia suplementar.

— Vou escrever.

Vou contar sobre o dia que ainda não passou; vou crescer, aumentar, exagerar.

Daquele jeito que eu sei bem como fazer.

Vou desfazer; vários nós que atei, pontos cegos que eu criei, fonte de vertigem que vem em espiral.

Hoje vou reduzir a pó várias crenças, e dançar ao som de lendas:

Vou iludir e enganar. O tempo que passou. E o que virá. Só para me fazer bem.

Uma vez na vida eu preciso me fazer bem.

Nas linhas tracejadas do tempo que perdi, eu criava um milhão de vidas e esquecia todas elas, eu as deixava cair no vão de cada caminho inacabado, eu que acabava chorando por elas.

Queria poder dizer que nunca fui negligente. Queria não ter sido negligente.

Mas posso ressuscitar e acolher

Porque

Nem as minhas palavras

Nem os meus incautos pensamentos

Ou preciosos invernos

Resquício do calor do amor

Tramoias e paradeiros esquecidos

O brilho do meu torpor

Doses de morfina cavalares

Porque minha vida debaixo da máscara debaixo da dor debaixo do desespero e debaixo do meu amor

Isso ninguém pode me tirar.