O Grito dos Bons

Herói impopular. Visto com maus olhos pela população. Herói sem prestígio. Herói sem máscara, sem capa, sem floreios na fala. Trajando apenas o manto do ódio e da indignação, seus pés ungidos pela força descomunal com que a raiva lhe abençoava. Estocadas contundentes contra a porta de madeira com a sola dos pés descalços. Estocadas severas contra o julgamento e a hipocrisia dos falsos moralistas.

            Ele gritava.

            “Querem bater nele aí dentro! Estão espancando ele! ”.

            Ninguém ousava tentar impedi-lo. A fúria faiscava em seus olhos e explodia no pé que avançava contra a porta.

       No entanto, os semblantes assombrados e os exageros das reações deixavam entrever a desaprovação da opinião pública. Herói sem prestígio. Herói sem apoio.

            Dentro do recinto, do outro lado da porta que era brutalmente espancada com chutes violentos, as luzes estavam apagadas e diversas forças opositivas tentavam impedir o avanço daquele homem consternado. Este não devia ter mais que um metro e sessenta e cinco centímetros de altura, mas era robusto, e definitivamente tinha força de sobra nos membros do corpo. A cada impacto que aquele pé-de-chumbo explodia contra a porta, ameaçando derrubá-la no próximo ataque, homens bem mais altos que ele, e mais encorpados também, verdadeiros titãs, surgiam de relance por entre a fresta que se abria. Eles respondiam ensandecidos. “Não estamos batendo nele! Não estamos batendo nele! ”

            O caos estava instaurado. Fúria e sede de justiça envolviam o ambiente numa verdadeira catástrofe humana. E a plateia horrorizada sentia pesar na pele a tensão impregnada no ar. Burburinhos eram ouvidos de todos os lados. Os funcionários haviam parado de passar as compras, e os clientes não se importavam com o tempo que levariam nas filas de seus respectivos caixas.

            “Chame a polícia! ”.

            Alguém suplicou com terror escapando das cordas vocais. Ela já estava a caminho, foi o que responderam.

            No pátio de um supermercado, o palco estava armado. E pegava fogo. A atração principal era um homem de estatura baixa e porte físico robusto e sua fúria contra uma provável injustiça cometida contra outro homem. Seu igual. Ser humano. Sobre este, sabia-se apenas que havia sido pego em flagrante tentando furtar alguma coisa daquele estabelecimento. O quê? Não, ninguém saberia dizer ao certo. Além do mais, o público não estava propício a conhecer qualquer outra coisa senão a punição do delinquente acontecendo diante de seus olhos. Porque ele tinha que pagar. Bandido bom é bandido morto. Eles não disseram. Mas não precisaram. Eles transpiraram. Dava para ouvir com clareza as palavras proferidas por seus corações. Cada qual segurando sua própria pedra com firmeza, prontos para apedrejar. O infrator. O rebelde. De repente deixaram de lado o peso de suas próprias cruzes; desprotegeram seus telhados de vidro. Mas não existia nenhum problema nisso, porque, em maior ou menor grau, todos ali eram santos.

            O Herói do Povo, aviltado por seus protegidos, por fim foi impedido de continuar seu ato de bravura por um rapaz que o acompanhava. Deixou o supermercado de cabeça erguida e um chinelo perdido. A multidão estava ainda em choque, mas começava a se movimentar de todos os lados a fim de que a dinâmica pusesse em marcha a digestão do que acabara de ocorrer. Vozes por todos os lados. A normalidade tentava reiniciar o seu fluxo.

            A polícia chegou, com algum atraso na conta, e levou sem muitas delongas o delinquente. Foi retirado da sala em que era mantido encarcerado por aqueles que o haviam pego em flagrante. Era um senhor que deveria estar na faixa dos quarenta anos de idade. A punição não tardaria. Nós queríamos ter ensinado para ele com nossas próprias mãos. A um custo elevado, talvez. Mãos sujas de sangue, talvez. Humanidade murmurada. Mas a polícia já o estava carregando para a prestação de contas final. Muito bem, que se fechem as cortinas, o show não precisa continuar.

            Quanto a mim, sabia que não estava em posição de julgar qualquer pessoa. Entre defender a si e a suas posses e bens, bem como manter intacta as normas da sociedade, e defender a dignidade de um ser humano desviado, o que você escolheria? O que seria razoável pedir para que todas aquelas pessoas escolhessem? Eu mesmo estava confuso.  Mas por dentro aplaudia com fervor a atitude daquele pequeno homem enfurecido. Não podia negar para mim mesmo. E desejei, ali mesmo na superfície das minhas emoções, que houvesse mais alguém dentre as testemunhas do ocorrido com a mesma disposição de espírito que eu.

           Entretanto, mais do que qualquer outra coisa, eu só conseguia pensar, enquanto sentia essa angústia castigas minhas certezas. Quando tudo voltou ao normal, e os últimos resquícios do incidente já se desfaziam na correnteza da ordem e do progresso, ocorreu que essa linha que separa o bom do mau, o justo do injusto…essa linha é tão desgraçadamente tênue. A qual dos dois lados dela eu pertenço?

 

 

 

Teresina, 26 de setembro de 2019

 

 

 

Ainda que não haja luz

Acordar é a parte mais difícil de tudo isso. Pela manhã a dor é mais óbvia, tão clara e natural quanto o próprio dia que desponta. Pela manhã a dor é mais cruel. Depois de um dia inteiro construindo uma armadura inquebrantável de pensamentos e convicções; estabelecer crenças e mitigar inseguranças; dispender tanto esforço e energia na tarefa de simplesmente…deixar ir. Mesmo depois de tudo, acordo com a alma nua. Acordo indefeso. Fraco e impotente. Todas as minhas defesas sobre o chão e o peito em franco processo de retração.

            Acordar é sempre a parte mais difícil. Porque a primeira coisa que me vem à cabeça é o teu nome. Logo em seguida, o desenho do teu rosto, e com ele uma sombra do teu sorriso, que brilha mais do que o fazia em nossos encontros casuais, e eu não sei por quê. O teu sorriso é tão real que me apavora. É por isso que de manhã é a minha pior hora.

            Ando a pensar em não mais dormir. Talvez não acordar: pela manhã – a dor é mais cruel. Quero despertar na escuridão. Ao final da tarde. Não vou te sentir, saudade.

            Situo minha vida entre a noite e a madrugada. Para não precisar adormecer tão rapidamente. Para não antecipar o despertar.

            Situo minha vida entre o crepúsculo e o lusco-fusco. Posso esquecer da manhã. Abro mão do alvorecer. Meus olhos estarão exaustos e minha mente a quilômetros de distância. Posso me tornar outro e nunca mais eu. Contudo nunca mais eu te verei renascer – com o brilho do amanhecer.

Ponto de Vista

Ébrio eu vejo o mundo, e o mundo finge não me ver. Eu te dou o meu amor, e não espero o teu em troca. Eu digo que quero bem. A quem? Que importa. O importante é querer bem.

Ébrio tudo é mais aceitável. O coração que se desfaz em pedaços silenciosamente. O amigo que decide que já é hora de ir. O amor que se cala por nenhum motivo aparente. E os olhos que te fitam desejosos, perscrutam tua fisionomia e adivinham as mensagens do teu corpo, menos o latejar intenso da tua dor.

Ébrio estou, ébrio vou permanecer. Até que seja seguro sair. Até que seja inócuo o sentir. Até me libertar.


Inadiável recomeço

Hoje eu preciso descansar. Repousar a cabeça na raiz de uma árvore, com o sol lá em cima fervendo, o sol a pino, acreditando que está a me castigar, sem nem desconfiar que quanto maior a sua luz, mais intensa é a sombra na qual refresco os dias que me maltrataram. Estes, sim, souberam aplicar um verdadeiro castigo sobre mim, e eu é que nem desconfio o que fiz para merecer. Mas a sombra protetora de uma árvore vai ser a minha tão aguardada salvação.

   Quero deixar os pensamentos fluírem, e não interferir em nada. Tenho feito com frequência o papel de mediador entre minha mente e meu corpo, coletando o produto das minhas ideias e espalhando distorcidamente por toda a minha extensão física. É o que eu chamo de auto sabotagem. Tenho me auto sabotado com frequência, mas agora é a hora certa de parar.

   Vou deitar e não me mover; vou deixar que meu corpo diga onde e como quer ficar. Vou deixar minhas vozes falarem se quiserem falar, e calarem se assim preferirem. Vou olhar para o alto, para o céu infinito, em direção àquele ponto em que nem eu, nem a minha cabeça atormentada e confusa podemos corromper a atmosfera que ao redor. Estratosfera.

   Porque hoje me desprendi de algumas correntes que me mantinham enclausurado em um quarto escuro, alimentado de angústia e solidão. As bençãos, como eu já imaginava, não são sentidas de imediato. Ainda há algo de melancólico no modo como me sinto, um resquício do tormento pelo qual passei durante os últimos quatro meses. Mas as correntes não fazem mais parte de mim.  Voltei a ser um pouco mais livre. Liberdade que soa como alívio. Alívio que reverbera gratidão.

 

 

25 de fevereiro de 2019

A fragilidade dos meus dias


Eu quero chorar. Eu quero chorar como nunca antes chorei, se bem que acho isso impossí
vel. Já chorei demais nos últimos incontáveis meses, e nem sempre por motivos sensatos. Apenas chorei, e muito. Agora apenas não me parece ter sido o suficiente, e quero chorar de novo, e com muito mais intensidade. Estou na beira de um precipício sustentando essa forte impressão de que a única coisa que pode me salvar de não morrer é chorar. Chorar como se o mundo fosse acabar.

Uma pessoa muito próxima a mim disse que eu precisava contar mais o que se passa comigo para as pessoas, aliviar o meu coração, descarregar o peso sobre as minhas costas. Lembrou que o meu pai era do mesmo jeito, que eu sou a cópia dele nesse aspecto. Fiquei imaginando na época, e agora reproduzo o mesmo comportamento, fiquei imaginando se meu pai chorava. Se chorava com vontade, e não apenas derramava uma ou outra lágrima esporádica. Quando o peso era desumano, tão cruel que doía, será que ele se aliviava? Enquanto esteve vivo, nunca vi meu pai chorar. Acredito que hoje carrego não só a minha tristeza, mas a dele também. Pai, quero chorar por nós dois.

Há muitas pessoas ao meu redor que achariam estranho se me vissem chorando agora. Querer chorar, ter o direito de chorar, tudo isso não significa ter a possibilidade de chorar. Então não é de lágrimas que eu preciso nesse momento, apesar de precisar mais do que tudo. É de forças. Preciso reunir forças para suportar o peso dos olhos cheios de lágrimas. Para suportar a dor que causa a ânsia pelo futuro. Suportar mais um dia, mais um dia, mais um dia. Forças para não me deixar levar por pensamentos degradantes, pensamentos asfixiantes. Forças para não sucumbir ao desespero. Mas principalmente, e acima de tudo, forças para não chorar. 

 

 

22 de fevereiro de 2019